Uma breve história dos foguetes e do início das viagens espaciais

“Um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade”. A famosa frase do astronauta Neil Armstrong, ao descrever sua caminhada em solo lunar, dá uma boa dimensão das conquistas humanas no século XX. A corrida espacial travada entre Estados Unidos e União Soviética, que culminou na chegada da humanidade à lua em 1969, é uma história bem conhecida de todos. O que muita gente não sabe, no entanto, é que o início da atividade espacial é bem menos glamoroso e ocorreu, por vezes, de forma amadora, apenas pouco antes.

Os avanços da ciência do fim do século XIX e início do XX criaram em entusiastas um sentimento de que havia muito ainda a ser conquistado e que era apenas questão de tempo. Nas décadas de 1920 e 1930 diversos grupos amadores de foguetismo foram criados mundo afora. Em Nova Iorque, escritores de ficção científica e entusiastas se uniram no American Interplanetary Society, cujo objetivo era descobrir meios para chegar a outros planetas. O grupo foi fundado em 1930 por onze homens e uma mulher e, em um ano, já tinha mais de cem membros. Eles conseguiram, em 1933, lançar um fogute que atingiu pouco mais de setenta metros de altitude antes de explodir no ar. Eles ainda fizeram mais algumas tentativas, e uma delas acabou ferindo uma mulher que estava tentando fotografar o foguete. Em 1934, o grupo mudou seu nome para American Rocket Society e passou a concentrar os esforços mais em estudos do que em testes. Eles também mantinham bom relacionamento com outros grupos de foguetismo da época, em especial o britânico e o alemão, e trocavam informações e ideias.

Paralelo ao esforço de entusiastas amadores, cientistas também procuravam descobrir as fórmulas que levariam o ser humano para além da estratosfera. O cientista Robert H. Goddard vinha trabalhando com o tema desde a década de 10 e, em 1926, lançou o primeiro foguete movido a combustível líquido do mundo. Após um acidente em 1929 com um de seus protótipos, ele se mudou para o Novo México, onde continuou pesquisando.

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Imagem 01: Goddard e seu foguete
Fonte: Wikipedia

Goddard também se envolveu em uma polêmica bastante curiosa. Após a publicação de um artigo em 1919, no qual discutia a forma de alcançar altitudes extremas e chegar até mesmo à lua, um editorial no jornal The New York Times o acusou de não conhecer a lei de ação e reação, e que, no vácuo, uma reação não ocorreria. O editorial ainda afirmou que lhe faltava conhecimento dado no ensino médio. O jornal The New York Times se retratou em 1969, após a caminhada de Neil Armstrong na lua.

Um estudo pioneiro para o desenvolvimento dos foguetes foi publicado pelo russo Konstantin Tsiolkovsky, em 1903. Nele, Tsiolkovsky calculou que a velocidade horizontal necessária para a órbita mínima ao redor da Terra seria 8000 m/s, e que isso seria possível com um foguete movido a oxigênio e hidrogênio líquidos. Seu trabalho influenciou as conquistas do foguetismo não apenas na Rússia (depois de 1917 União Soviética), mas também na Alemanha e Estados Unidos.

Na Alemanha, um estudo importante para o foguetismo foi lançado em 1923 por Hermann Oberth. Isso impulsionou a criação de uma associação amadora de foguetismo, chamada Verein für Raumschiffahrt, em 1927. O grupo conseguiu lançar um protótipo de foguete com combustível líquido em 1930. Poucos meses depois, em um teste com álcool um foguete explodiu e matou um dos fundadores do grupo, Max Valier. Em 1932 o governo alemão propôs um contrato ao grupo. As divergências sobre o contrato (que foi rejeitado) enfraqueceram o grupo, que acabou no ano seguinte. O jovem Wernher von Braun, integrante do Verein für Raumschiffahrt, foi trabalhar no Departamento de Armas do Exército.

Com a ascenção do nazismo, as pesquisas sobre foguetes ganharam força na Alemanha. Isso porque o governo pretendia usá-los para fins militares. Em 1937 foi fundado o Centro de Pesquisas do Exército de Peenemünde. Lá, foram desenvolvidos foguetes e mísseis usados na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O mais famoso deles, o V-2, matou milhares de pessoas – mais em sua produção que em explosões. Estima-se que 9 mil pessoas, entre civis e militares, morreram em decorrência dos ataques de V-2s na guerra, e pelo menos 12 mil pessoas morreram em decorrência de sua produção – prisioneiros de campos de concentração usados em trabalhos forçados. O V-2 também foi o primeiro foguete a cruzar a atmosfera e atingir o espaço, em 1944.

Nos Estados Unidos, alguns membros da American Rocket Society fundaram, no final de 1941, a empresa Reaction Motors, Incorporated. Ao final da guerra, ela era a maior fabricante de foguetes movidos a combustível líquido no país. A empresa também ajudou a construir o Bell X-1, o primeiro avião a quebrar a barreira do som, em 1947. Muitos cientistas alemães que trabalharam em projetos aéreos migraram para os Estados Unidos após a guerra, incluindo Wernher von Braun, e continuaram a desenvolver o foguetismo. A corrida espacial, travada entre Estados Unidos e União Soviética a partir da década de 1950 deu um grande impulso no desenvolvimento de novas tecnologias.

Em 1957 a União Soviética lançou o Sputnik, o primeiro satélite artificial a orbitar a Terra. A URSS também foi pioneira no envio de uma pessoa ao espaço: o cosmonauta Yuri Gagarin foi o primeiro ser humano a ver a Terra de longe, em 1961. Dois anos depois, foi a vez da Valentina Tereshkova orbitar a Terra. Ela foi a primeira civil e também a primeira mulher a ir para o espaço. Valentina tinha apenas 26 anos à época, e passou quase 3 dias ao redor da Terra (mais do que a soma dos tempos de todos os americanos que tinham ido para o espaço até então). Ao todo, ela orbitou a Terra 48 vezes.

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Imagem 02: a cosmonauta Valentina Tereshkova
Fonte: BBC

A conquista de Valentina e da União Soviética foi tanto tecnológica quanto social:

“Em 1963, a russa Valentina Tereshkova orbitou a Terra; do ponto de vista da liberação das mulheres no Ocidente a vergonha do programa dos EUA não era tanto que uma mulher pilota não duplicou o feito como que a nossa sociedade não sentia que esse passo era sequer imaginável. Este tipo específico de história social era algo que revistas de ficção científica da década de 1930 e 1940 raramente, ou nunca, previram” (CARTER, 1977, p. 51 tradução própria).

De fato, levou vinte anos para que os Estados Unidos levassem uma mulher ao espaço. Entretanto Valentina foi – e continua sendo! – a única mulher a fazer uma missão sozinha no espaço. Uma pena que a igualdade de gênero não avance na mesma velocidade das conquistas espaciais.

Fontes: CHENG, John. “We want to play with Spaceships”: Popular Rocket Science in Action. In: Astounding Wonder: Imagining Science and Science Fiction in Interwar America. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2012 (p. 251-300).

CARTER, Paul A. The creation of tomorrow: Fifty years of magazine science fiction. New York: Columbia University Press, 1977.

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