“Nós, feministas, queremos continuar a luta. E queremos que seja feita por mulheres, para as mulheres”, disse Simone de Beauvoir

Simone de Beauvoir no ato organizado pelo Movimento de Liberação Feminina, Paris, 1971. Foto: Gilles Peress.

Simone de Beauvoir no ato organizado pelo Movimento de Liberação Feminina, Paris, 1971. Foto: Gilles Peress.

Desde que a frase de Simone de Beauvoir (1908-1986) foi citada em uma questão do último ENEM, muito se discutiu em torno do assunto nas redes sociais. Contaminada pelos acontecimentos, resolvi escrever um pouco mais sobre isso. “Não se nasce mulher: torna-se mulher”. Assim a autora sintetizou a tese que defende no ensaio teórico ‘O segundo sexo’, publicado em 1949, em que examina a condição secundária feminina a partir de analises da sociedade francesa. Nestas discussões, por um lado, se comemorou o fato de se ter uma questão dedicada a uma feminista na prova, por outro, surgiram várias distorções do pensamento da autora a partir de pontos de vista sem aprofundamento e desonestos. Uma das consequências disso tudo me soou quase uma ofensa pessoal. O verbete ‘Simone de Beauvoir’ na Wikipédia tinha sido vandalizado. Explico(!). Precisarei aqui ter muito cuidado para não misturar a minha experiência pessoal e afetiva (de admiradora) de leitura da obra da autora com a obra em si.

Simone de Beauvoir não é mais uma referência muito citada nas pesquisas que se fundamentam na teoria feminista e de gênero. Embora suas sobras sejam um marco de inegável importância, este campo teórico se desenvolveu a partir de críticas e complementações ao que já foi produzido, o que é natural em qualquer campo científico. Ela estava falando de mulheres francesas da década de 40, e precisamos de outras categorias para pensar sobre as mulheres de hoje, sobretudo as brasileiras. Não quero me deter aqui às teses da autora, mas contar um pouco da sua vida pessoal. Conhecer a história de mulheres inspiradoras como ela é importante para construímos nossa própria trajetória, pelo menos foi assim para mim. Foi a sua história pessoal, muito mais que seus ensaios teóricos, que me motivaram a seguir a carreira acadêmica.

“Meus pais rompiam com as convenções orientando-me para uma carreira e não para o casamento; na realidade cotidiana, entretanto, continuavam a educar-me nesse sentido; nada de me deixar sair sem eles, nem de me poupar das tarefas familiares.”

1914, Simone aos 6 anos.

Simone aos 6 anos [1914].

Beauvoir escreveu, além dos ensaios teóricos e romances, quatro livros de memórias (recomendo todos!). Ela queria que o público conhecesse a pessoa que escrevia os livros. Aqui, vou contar um pouco, com muito afeto, sobre “Memórias de uma moça bem-comportada”, o primeiro deles. Publicado em 1958, compreende o período entre 1908 e 1929, com narrativas que se iniciam a partir seu nascimento até sua aprovação nos rigorosos exames de agrégracion em filosofia na Sorbonne.

“Não, disse a mim mesma, guardando uma pilha de pratos no armário, minha vida conduzir-me-ia a algum lugar. Felizmente eu não estava votada ao destino de dona de casa. Meu pai não era feminista; mas a necessidade faz a lei “Vocês, meninas, não casarão, não têm dote, precisarão trabalhar” Eu preferia de muito a perspectiva de um ofício à do casamento: autorizada certas esperanças.”

Nascida em uma família católica e de valores burgueses, ela reflete sobre sua própria história, mostrando como a forte

minha cópia de

Minha cópia de “Memórias de uma moça bem-comportada“, edição de 1964.

educação moral e religiosa formava as mulheres de sua geração, além de recontar as experiências vividas, em alguns momentos dolorosas e muitas vezes acompanhadas de dilemas morais, quando decide romper com as normas as quais estava submetida enquanto mulher.

“podia contar nos dedos da mão mulheres que possuíam, então, grau de agrége ou de doutor em filosofia; aspirava ser uma dessas pioneiras. […] Não lamentava por certo ser mulher; tirava, ao contrário, grandes satisfações disso. Minha educação convencera-me da inferioridade intelectual do meu sexo, o que admitiam muitas de minhas congêneres. “Uma mulher não pode esperar obter a agrégation sem cinco ou seis malogros, pelo menos”

Beauvoir conta também sobre sua convivência com personagens como Jean-Paul Sarte, Merleau-Ponty e Lévi-Strauss, e outros amigos e amigas não tão famosos. No entanto são marcantes as lembranças sobre sua amizade com Zazá, outra moça burguesa e inquieta que conheceu no curso católico Désir, que teve uma morte trágica, descrita de forma densa e carregada de sentimentos, revelando, mais uma vez, consequências da forte opressão de uma educação moral e religiosa que as mulheres de sua geração estavam submetidas. Quando li o livro, intui que a morte de Zazá foi uma das motivações que levaram Beauvoir tratar sobre temas que tratou.

“Juntas havíamos lutado contra o destino lamacento que nos espreitava e pensei durante muito tempo que pagara minha liberdade com a sua morte”

Para finalizar, deixo duas recomendações.

Daniela Lima escreveu brilhantemente sobre a passagem da escritora no Brasil entre outras coisas, leitura indispensável.

A frase do título do texto foi retirada de uma das poucas entrevistas concedidas por ela à rede de televisão francesa (ir para 24:22min), na década de 70, como parte da militância feminista, como ela deixa claro no vídeo. Beauvoir fala sobre os motivos de se declarar feminista. Infelizmente está em francês, com legenda em inglês.

Referência:

BEAUVOIR, Simone. Memórias de uma moça-bem comportada, 1958.

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