Professoras trans falam sobre desafios enfrentados no seu processo de escolarização

Ilustração: Helô D'Angelo

Ilustração: Helô D’Angelo

“Meu sonho é que tenha outras travestis e transexuais nessa universidade, mas aí você percebe que o processo de exclusão da travesti e da transexual é muito, porque todas as meninas que foram minhas colegas desistiram. Não conseguiram passar pelo ensino médio, porque é muito, mas é muito difícil mesmo. Você sofre um inferno, é um inferno a cada dia, você pensa assim: vou ter que ir para aquele inferno mais um dia. (Adriana dos Santos, Aquidabã-SE, novembro, 2010).” (FRANCO e CICILLINI, 2015, p. 333)

A narrativa acima compõe o conjunto de dados publicados recentemente em um artigo da revista Estudos Feministas sobre a escolarização de professoras transexuais, travestis e trangêneros no Brasil. O estudo envolveu, além de fontes documentais, entrevistas com doze mulheres, professoras trans das cinco regiões do país. Os autores lembram que estas representam uma pequena parcela de pessoas trans que conseguiram permanecer no sistema educacional graças à resistência e constante enfrentamento à vulnerabilidade social, e processos de exclusão aos quais foram expostas desde a educação básica, relacionadas às imposições heteronormativas.

O que seria, afinal, heteronormatividade? A definição apresentada no artigo é a seguinte:

“[…]processo de efetivação e naturalização da heterossexualidade como a única forma possível e legítima de manifestação identitária e sexual. Com isso, criou-se um conjunto de dispositivos que se vinculam diretamente à produção de corpos, sujeitos e identidades definidos e coerentes com a sequência corpo/gênero/sexualidade.” (p.326)

As professoram entrevistadas atuam principalmente em escolas da rede púbica; todas já tiveram experiência de ensino na educação básica.

O artigo discute que um dos principais motivos que contribuem para afastar as pessoas trans da esfera da educação formal é o ambiente hostil no qual são obrigadas a permanecer desde que iniciam a construção de seus gêneros. O ambiente hostil a que se referem diz respeito a histórias decorrentes do fenômeno de transfobia, definido como: “o processo de recusa histórica, social e cultural da forma como pessoas trans constroem seu gênero e vivem suas sexualidades.”(p. 330).

Os espaços de formação escolar e acadêmica têm sido lugares em que se reproduz transfobia — discriminação, violência e exclusão, processo que tem inicio, às vezes, na própria família.

As barreiras de acesso à formação potencializam ainda mais a situação de exclusão a que estão sujeitas pessoas trans, haja vista que, no Brasil, a escolarização é uma forma de ascender socialmente, de romper com ciclos de reprodução de desigualdade social. Acesso à educação formal é também garantia de inclusão cidadã e respeito aos direitos humanos.

A despeito das barreiras apontadas no artigo, os autores finalizam de forma otimista. Nas palavras das professoras trans que colaboraram com o estudo, ainda que os obstáculos sejam muitos, conseguem vislumbrar no movimento de resistências novas possibilidades de formas de ensino e aprendizagem, no que se refere às questões de gênero e de sexualidades, sendo a escola um espaço de possibilidades de efetivação de direitos. Segundo elas, as suas trajetórias são exemplos dessas possibilidades.

No ano de 2015, por exemplo, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) documentou aumento no número de candidatas e candidatos trans que usaram o nome social nas inscrições para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM): esse número cresceu 172%. Esse é o segundo ano que o Inep permitiu o uso do nome social, depois de reclamações sobre constrangimentos sofridos durante o exame. O aumento se deu, principalmente, pela mudança na forma de solicitação para o uso do nome social, facilitado na última edição. As pessoas trans também terão o direito de frequentar o banheiro que desejarem, de acordo com a identidade de gênero.

Para ler o artigo na íntegra, ver o link nas referências bibliográficas.

Referência Bibliográfica:

FRANCO, N.; CICILLINI, G. A. Professoras trans brasileiras em seu processo de escolarização. Revista Estududos Feministas,  Florianópolis ,  v. 23, n. 2, p. 325-346, Aosto, 2015.

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