Por que a Ciência Básica importa? Um olhar especial para a Biologia

Earthrise. Fonte: Nasa

Earthrise. Fonte: Nasa

Temos mania de dividir tudo em caixinhas didáticas, e na ciência não é diferente. Uma das discussões ainda bastante relevantes atualmente ocorre entre ciência “básica” e ciência “aplicada”. De forma geral e bastante intuitiva, entendemos por ciência “básica” (ou ciência pura, ou hard science) aquelas pesquisas que buscam entender como é o mundo e como tudo funciona, em sua essência. Já pesquisas que visam resolver questões práticas e cotidianas são classificadas como ciência “aplicada”, ou como alguns preferem dizer: aplicações da ciência.

No mundo acelerado em que vivemos, é fácil conseguir e justificar investimento em quase todo tipo de ciência aplicada, mas o incentivo pode ser extremamente difícil quando nos dedicamos à ciência básica – e com isso quero dizer tanto no aspecto financeiro quanto pessoal. Poucos entendem quando contamos que nos dedicamos a entender a história evolutiva dos peixes, ou como os hormônios de um sapo funcionam, ou como ocorreu uma formação geológica, ou ao desenvolvimento de equações matemáticas complexas.

Pesquisas em ciência básica não tem objetivo prático claro e definido com antecedência. No caso da ecologia, por exemplo, pesquisas básicas buscam entender a diversidade biológica, as interações entre organismos e entre os organismos e seu meio. Seu objetivo principal é o avanço do conhecimento, muitas vezes de forma exploratória, ou seja, sem saber ao certo os resultados que serão encontrados e quais suas possíveis aplicações – se é que existirão. Um dos objetivos centrais das pesquisas em ecologia básica envolve desenvolver, testar e aprimorar hipóteses e teorias, como a evolução através de seleção natural. Por outro lado, a ecologia aplicada é motivada por objetivos particulares bem definidos, e buscam resolver problemas ambientais como recuperação de áreas degradadas, invasão de espécies exóticas, desertificação… manejo de recursos naturais, de forma geral.

Entretanto, é preciso saber com clareza que um tipo de ciência não é mais ou menos relevante que outro. Mais que isso: a ciência aplicada não existe sem uma base sólida e um passado de exaustiva pesquisa básica. Eric Lander, neste vídeo, faz uma ótima analogia: a ciência básica pode ser entendida como troncos de árvores em uma floresta, enquanto as aplicações da ciência são como as folhas, nas pontas dos galhos. Se hoje é possível a fabricação de iPhones, que carregamos conosco o tempo todo, é devido a anos de pesquisa em diversos “troncos” da ciência – termodinâmica, química, geologia, estatística, inteligência artificial, física teórica, eletricidade, robótica… inclusive equações desenvolvidas por Einstein, sem que ele tivesse a menor ideia em que resultariam.

São incontáveis os exemplos de pesquisas básicas em Biologia que levaram a grandes desenvolvimentos e aplicações em áreas diferentes. Um exemplo clássico: ao estudar ervilhas, Mendel não imaginava que estava criando uma das grandes bases da genética. Mais recentemente, pesquisas que buscavam entender as causas da mortalidade do “rato-toupeira-pelado” (Heterocephalus glaber) levaram à  descoberta de mecanismos de defesa contra tumores. E a descoberta de um peptídeo com atividade antimicrobiana e antifúngica capaz de reduzir o crescimento dos principais agentes de infecções hospitalares foi possível através do estudo do pinguim-rei (Aptenodytes patagonicus), cujo macho preserva peixes em seu estômago por cerca de 3 semanas para alimentar o filhote.

Como qualquer outra área de desenvolvimento, as pesquisas em biologia básica precisam de muitos recursos financeiros e humanos. Mas por trabalhar na base do conhecimento e por não ter aplicação prática definida, esse tipo de ciência cada vez mais perde esses recursos para pesquisas aplicadas. É preciso que a sociedade entenda a importância da ciência básica e a incentive, pois não sabemos os desafios que enfrentaremos no futuro. Especialmente no cenário atual de mudanças ambientais globais e perda de diversidade, a compreensão profunda dos problemas é o melhor caminho para encontrar uma saída – e possivelmente o mais seguro e barato. Decisões políticas precisam de predições seguras de ecólogos, baseadas em trabalho exaustivo de pesquisa de campo, laboratório e modelagem. E isso não se faz sem investimento.

Apesar de todas as bases para aplicações fornecidas pela ciência básica, os autores deste artigo discutem que a principal justificativa para desenvolver e incentivar essas pesquisas deve ser satisfazer a curiosidade, adquirir conhecimento e alcançar a compreensão. Por trás do “tiro no escuro” que é a pesquisa em ciência básica, está a motivação baseada em curiosidade, criatividade, inteligência, perseverança… e até sorte. Mas a curiosidade é seu maior motor. Há um certo desejo inato na maioria dos biólogos em compreender como sistemas complexos naturais funcionam – sejam as interações entre moléculas ou indivíduos ou populações. Explorar o mundo que nos cerca e compreender a natureza das coisas apenas pelo conhecimento é possivelmente uma das aspirações humanas mais antigas. E há beleza nisso.

Fontes:

Courchamp, F. et al. Fundamental ecology is fundamental. Trends Ecol. Evol. 30, 177 (2015).

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