Divisão sexual do trabalho e carreira acadêmica (I): a graduação

Nossa sociedade está estruturada na chamada divisão sexual do trabalho. No post de hoje e no post do dia 13 de novembro, abordaremos como ela impacta a vida acadêmica.

Na estrutura social sustentada pela divisão sexual do trabalho, às mulheres cabe realizar o trabalho dito “reprodutivo e de cuidados”, restrito à esfera privada; e aos homens, o trabalho dito “produtivo”, realizado na esfera pública. Existe uma hierarquia entre o trabalho reprodutivo e o produtivo. O último é mais valorizado, enquanto o primeiro não é visto como trabalho, mas como uma atividade que a mulher realiza por sua própria natureza, sendo executado por amor e afeto.

Já há algumas décadas, as mulheres têm ocupado postos de trabalho na esfera dita “produtiva”. No entanto, por serem responsáveis pela maior parte do trabalho não remunerado exercido no âmbito doméstico,[1] muitas vezes, as mulheres são vítimas da “dupla jornada de trabalho”, não lhes sobrando o tempo livre necessário para realizar outras atividades.

A divisão sexual do trabalho, que estrutura nossa sociedade, tem reflexos, também, na vida acadêmica.

Por serem as principais responsáveis pelo trabalho “reprodutivo”, geralmente desde muito novas, as mulheres têm menos tempo para estudar e, portanto, mais dificuldade para entrar na universidade e, uma vez aprovadas, para seguir no curso.

Também porque são, frequentemente, as únicas responsáveis pelos filhos, são diretamente afetadas quando não há creches disponíveis nas universidades ou quando não há dormitórios adequados para crianças nas moradias universitárias.

A divisão sexual do trabalho também se reflete na divisão sexual dos cursos. Por exemplo, a Escola de Enfermagem é a unidade de ensino e pesquisa da USP que apresenta o maior número relativo de mulheres entre os alunos de graduação: em 2013, eram 369 mulheres e 43 homens. Já a Escola Politécnica e o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação-São Carlos são as unidades que apresentam o maior número relativo de homens entre os graduandos: em 2013, a Poli tinha 908 alunas e 3944 alunos e o ICMC contava com 200 graduandas e 878 graduandos.[2] Ou seja, a unidade que possui o maior número relativo de mulheres é a responsável por cursos tradicionalmente ligados a ideias de cuidado e afeto, geralmente associadas a mulheres. Já as unidades que têm o maior número relativo de homens abrigam cursos tido como racionais, científicos, ideais comumente ligados aos homens.

Essa divisão sexual dos cursos acaba reproduzindo as desigualdades entre homens e mulheres no mercado de trabalho, pois os cursos “masculinos”, geralmente, estão ligados a profissões de maior prestígio social e que costumam proporcionar remuneração mais alta.

E na pós-graduação e na carreira acadêmica? Qual é o impacto da divisão sexual do trabalho? Aguarde nosso post do dia 13 de novembro, no qual discutiremos essas questões. 😉

[1] De acordo com pesquisa realizada pelo IPEA, as mulheres gastam um tempo médio 150% maior do que o gasto pelos homens em atividades domésticas. http://www.ipea.gov.br/retrato/infograficos_uso_tempo.html.

[2] Ver o Anuário Estatístico para o ano de 2013: https://uspdigital.usp.br/anuario/AnuarioControle#

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s