Conflitos territoriais e violência contra os Guarani-Kaiwoá e outros povos indígenas no Brasil

kamikiaimg_5954Fonte: Articulação dos Povos Indígenas do Brasil-Apib/ Foto: Kamikia Kisedje

Falem sobre a situação do povo Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul, chamem atenção de todos os brasileiros sobre isso”, diz a militante indígena, Daiara Tukano, em um vídeo-depoimento recente que circula nas redes sociais. Nele, Daiara pede ajuda para dar visibilidade à situação de violência e ameaças vividas por esses povos tradicionais há alguns anos e que, atualmente, se tornou mais aguda, diante do extermínio de populações como consequência das disputas por terras no Mato Grosso do Sul. A ideia de escrever esse texto surgiu ao assistir o depoimento de Daiara, que é do povo Tukano. Ela é formada em artes e mestranda em direitos humanos na Universidade de Brasília, desenvolvendo uma dissertação sobre a questão indígena no ensino brasileiro. É também militante indígena e feminista.

Sabemos e discutimos pouco sobre os povos indígenas brasileiros e os problemas graves que eles vivenciam. Esse desconhecimento favorece a perda de direitos e a propagação da violência. Assim, procuro apresentar, brevemente, pontos cruciais a respeito das disputas territoriais em que essas populações estão envolvidas e que foram publicados em um artigo recente da revista Estudos Avançados.

O estado de Mato Grosso do Sul concentra parte importante dos povos tradicionais no Brasil. São cerca de sessenta mil indígenas, entre os quais, aproximadamente, 45 mil são Guarani-Kaiowá. O Mato Grosso do Sul é um estado cuja base econômica se assenta no agronegócio. Sua história é marcada pela perda de condições de vida das populações indígenas: expropriação de suas terras, contaminação das águas e do ar e seu confinamento em reservas.

No campo das ciências humanas e sociais, a antropologia é a área que tem maior tradição em pesquisas sobre povos indígenas. Essas pesquisas, muitas de cunho etnográfico – método também tradicional na investigação antropológica – buscam responder suas perguntas de investigação ‘do ponto de vista dos nativos’, ou seja, compreender a lógica que sustenta o pensamento e o modo de vida dessas populações. A pesquisa acadêmica tem contribuído para mostrar que o modo de vida desses povos depende, fundamentalmente, da sua relação com a terra, e que a lógica que organiza suas práticas cotidianas, sinteticamente, envolve modelos de uso da fauna e da flora radicalmente opostos ao modelo de produção para o consumo que fundamenta o agronegócio.

O estudo chama atenção para o fato de que o agronegócio – que tem se organizado politicamente com sucesso através da ocupação por seus representantes no Congresso Nacional, com a formação da bancada ruralista – é mais do que uma simples opção produtiva, é um modelo de sociedade.  Seus principais cultivos são a soja, o milho e a cana-de-açúcar, voltados à produção de biocombustíveis, de alimentos (principalmente rações) e a criação extensiva de gado de abate, visando à exportação, sem produzir alimentos para a população da região. Além disso, provocam problemas socioambientais e de saúde pública, como o alto consumo de agrotóxicos e desmatamento. Promovem a  concentração da propriedade fundiária e fortalecem a monocultura, que requer grandes extensões de terra para se desenvolver.

Portanto, as terras pelas quais lutam os povos tradicionais brasileiros fazem parte de um quadro mais amplo de disputas envolvendo a questão fundiária. Tais disputas são compostas, de um lado, do agronegócio, da mineração, de políticas de desenvolvimento econômico do Estado e de gestores públicos ligados a esse setor; e, de outro, de populações indígenas, quilombolas, populações tradicionais (caboclos, ribeirinhos, seringueiros, castanheiros), ambientalistas, antropólogos e indigenistas.

A disputa tem um cunho fundamentalmente ideológico de classe: as populações indígenas no Brasil são vistas como entraves ao desenvolvimento econômico, em um contexto difícil para quem compartilha valores distintos do desenvolvimento sustentado no capital como eixo sócio-político-econômico. A despeito do extermínio, da invisibilidade e da marginalização que o Estado brasileiro impõem a esses povos, os Guarani-Kaiowá não aceitam a dominação de forma passiva, resistem, ainda que em grande desvantagem. Sua resistência fundamenta-se na luta pela garantia de sua continuidade.

Fontes:

CAPIBERIBE, Artionka; BONILLA, Oiara. A ocupação do Congresso: contra o quê lutam os índios? . Estudos avançados,  São Paulo ,  v. 29, n. 83, p. 293-313, abr.  2015 .   Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142015000100293&lng=pt&nrm=iso&gt;.

https://mobilizacaonacionalindigena.wordpress.com/

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