Engenheiros e Físicos Fêmea

*Este relato traz reflexões de experiências pessoais e observadas. Não regem absolutamente todos os indivíduos de exatas, mas se manifestam com frequência alta o suficiente para motivar esse texto.

Há tempos existem elementos curiosos nas minhas amizades com garotos. Grupos “de meninos” sempre foram muito receptivos à minha presença. Eu podia estar na banda, no time, na roda de conversa, nos quartos bagunçados tão característicos… Eu era capitã do time. Nenhuma roda de garotos mudava o tom da conversa por minha causa. Quando surgia um desconforto por parte de algum novato as coisas eram rapidamente resolvidas com “relaxa, ela é brother”…

Nem demorou tanto até que eu fosse universitária, aluna de Física numa federal. E eu não sabia das proporções que esta relação tomaria. Após meia dúzia de mesas de bar, novos grupos de garotos à vontade com a minha presença estavam formados e, naturalmente, recebi o meu título: eu não era mulher, era físico fêmea. E isso não era uma especialidade das ciências duras. Éramos todas pequenos bibelôs com exemplares disponíveis também nas engenharias.

Minha vida, meus caros, era bem mais fácil do que a das garotas oficialmente mulheres. Elas eram assediadas de modo muito mais desrespeitoso, como carne em uma roda de leões. Cada cofrinho deve ter reprovado meia classe de Cálculo I. Precisavam provar a cada segundo que podiam executar essa ou aquela tarefa. Eram excluídas de um modo muito mais explícito e veja bem, em exatas, não há muitos grupos de mulheres que se possa integrar. Ao ir mal em uma disciplina, ouviam as mais bem intencionadas sugestões: “Você devia fazer arquitetura. Tem umas contas mais simples e tem mais a ver com as mulheres”. Em aproximadamente dez anos, vi duas dessas moças completarem o curso. Duas. Dez anos. Duas. Deux. Two. Duas garotas consideradas oficialmente mulheres se formando. Em dez anos.

Deste modo foi sempre uma espécie de privilégio ser brother – ou físico fêmea. E então qual o problema aqui? Estaria eu, um exemplar tão afortunado, procurando razões para me queixar da vida? Na verdade, não dura muito. Quando as coisas começam a ficar sérias (na execução de um projeto de pesquisa, por exemplo) e você concorre com uma figura masculina, “parecer um homem” ainda não é suficiente. Ainda que fosse, e caso você não tenha notado, existe sim um “pequeno” inconveniente em tudo isso: A referência do que é “bom” possui uma genitália específica. E nem vou gastar caracteres com ⅓ de dúzia de contra exemplos – e o diabo que elas passaram para que assim o fossem. O bom é masculino, e você pode ser tão boa quanto possa se aproximar da masculinidade. O que pode implicar em abrir mão de muitos elementos da sua vida pessoal, além de ter que preparar um bom caderno de explicações sobre conciliar a sua carreira com blá, blá, blá… E que sentido faz toda essa prosa quando – num meio tão criterioso – nada reafirma a incapacidade de resolver integrais usando batom?

Aos poucos, fui entendendo o quanto poderia ser destrutivo que o meu raciocínio fosse considerado “bom, por ser parecido com o de um homem”. Ganhei também em ter uma orientadora maravilhosamente fora dos padrões físico fêmea, exalando competência por todos os fios de seus cabelos perfeitamente cuidados. Até que a verdade me deu na cara, daquele jeito que só ela sabe fazer. Eu não estava ganhando a briga. Eu estava ajudando o time adversário.

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Uma das diversas respostas bem humoradas às declarações do cientista Tim Hunt sobre a presença de mulheres em laboratórios. Fonte: http://www.bbc.com/

Em um ano em que um prêmio nobel diz por aí que mulheres em laboratórios só trazem problemas, a minha reflexão é que nos esforcemos todos os dias para deixar de lado toda e qualquer razão que atrapalhe tanto o desenvolvimento da ciência quanto o empoderamento feminino. E, numa tentativa de me esquivar da profundidade deste tema e do pedantismo dessa conclusão, recomendo lavação de alma aquiaqui, aqui, e aqui. Vida longa (e próspera) a todas as divas cientistas. Que nossa competência seja desatrelada de aparência e comportamento social. Ainda não sei como conto as pessoas qual a minha profissão. Bacharela em Física soa horroroso. Física tem o mesmo problema de Música… Mas Físico Fêmea, definitivamente, eu passo.

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