Lois Jenson e a falta de metade da História

Lois Jenson é uma mulher muito importante para se pensar as relações de gênero no ambiente do trabalho. Infelizmente, é extremamente difícil encontrar livros, artigos ou qualquer tipo de fonte confiável que conte a história dessa mulher.

A ideia inicial desse texto era discutir “apenas” a vida e a contribuição de Lois para a questão de gênero nos Estados Unidos, mas com toda a dificuldade de encontrar informações sobre ela fez-se necessário aumentar o escopo do texto para se pensar: por que a história das mulheres não é contada?

Primeiramente, vamos pensar em Lois. Essa mulher inspirou um filme chamado “North Country” (Terra Fria, no Brasil). Tal filme contou um pouco da história dessa mulher que viveu na década de 70, em Minnesota, através de uma personagem fictícia chamada Josey Aimes. A construção da personagem não foi totalmente fiel à história de Lois, já que introduziu outros elementos de discriminação de gênero para criar uma personagem mais dramática. Mesmo assim, manteve o essencial.

Lois foi uma pioneira. Em uma época em que mulheres não eram nada bem vindas para trabalhar nas minas de carvão, ela insistiu em trabalhar com isso já que pagava melhor do que os empregos “de mulher” (veja-se a atualidade disso, já que até hoje os empregos mais precarizados são reservados às mulheres e ainda existem profissões em que mulheres não são bem vindas) e ela precisava sustentar seus filhos sozinha. Era mãe solteira e, por isso, já sofria incontáveis discriminações. Sua situação piorou em 1975, quando começou a trabalhar nesse emprego “de homem”.

Ela suportou um ambiente de trabalho extremamente incômodo até que, em 1988, finalmente ela convenceu suas colegas a entrar com a primeira ação “de classe” (class-action) por assédio sexual nos Estados Unidos. Ela e suas companheiras de trabalho eram alvos constantes de humilhação por parte não só de seus patrões, como também de seus companheiros de trabalho, que não admitiam o fato de estarem dividindo o mesmo ambiente de trabalho com mulheres.

Elas narraram que sofreram stalking (em português, é algo parecido com perseguição), assédio sexual, linguagem imprópria, intimidação, dentre outros abusos, inclusive físicos. O sindicato da classe não quis comprar a briga, já que era liderado por homens que concordavam que mulheres não deveriam se meter em “ambiente de homens”.

O caso ficou conhecido como “Lois E. Jenson vs. Eveleth Taconite Co” e só teve solução 10 anos depois, concedendo indenização para as mulheres. Foi documentado no livro “Class Action”, por Clara Bingham e Laura Leedy Gansler.

Além da história triste, mas de “superação”, que Lois nos mostra, temos outros questionamento a fazer. Falta metade da história para nos ser contada. Falta a metade da história em que são narradas as vidas e os problemas das mulheres. As mulheres são mais da metade da população mundial, por que só ficamos sabendo dos “grandes homens”, “grandes pensadores”, “grandes teóricos”?

Cadê a história das mulheres?

A ciência é masculina, o direito é masculino, a política é masculina… E quem conta a história é quem tem poder para isso. Não é à toa que a história de revoltas operárias também são “apagadas” da história. Classe trabalhadora não tem poder, não pode passar sua faísca de esperança de uma sociedade melhor para seus filhos e filhas. Assim como a população negra.

O livro que conta a história de Lois não está disponível no Brasil. Para se achar alguma fonte confiável sobre a história dessa mulher (veja, o caso foi solucionado em 1998, há não tanto tempo atrás), é necessária uma grande pesquisa. Além de mulher, operária. Quando vamos começar a ouvir e contar a história dos “excluídos” da história?

Bibliografia e referências:

PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. Bauru: EDUSC; 2005.

_________.Os excluídos da História: operários, mulheres, prisioneiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 4ª.Ed , 1988.

PINSKY, Carla Bassanezi. Estudos de Gênero e História Social. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 17, n. 1, p. 159-189, Abril de 2009. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2009000100009&lng=en&nrm=iso&gt;. Acesso em 30.8.15.

REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835. São Paulo: Companhia das letras, 2003.

https://en.wikipedia.org/wiki/Jenson_v._Eveleth_Taconite_Co. (consulta em 3.9.15)

http://www.pstu.org.br/node/6047. (consulta em 3.9.15)

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