Micro-organismos que vivem em sedimentos a ~2,5 km de profundidade no oceano são semelhantes àqueles que vivem na superfície.

Quando pensamos nos animais que vivem no fundo do oceano, na maioria das vezes imaginamos aqueles animais estranhos e bem diferentes do que vemos na superfície. Será que o mesmo se aplica aos micro-organismos? Um estudo realizado por um grupo de pesquisadores de diversas universidades mostrou que… não!

Amostras foram retiradas de sedimentos de 2 quilômetros abaixo do solo do oceano e as análises demostraram que os micro-organismos ali presentes são similares com os que habitam outros ambientes na superfície da terra. Uma resposta inesperada, já que os sedimentos do fundo do oceano são um local aonde a temperatura e a pressão são totalmente diferentes dos padrões em que nós vivemos. Além disso, não existe muitas formas disponíveis de nutrientes para serem utilizadas pelos micro-organismos.

Para esse estudo, foram utilizadas amostras de sedimentos na costa nordeste do Japão, na profundidade de até 2400 metros. Eles encontraram evidências de atividade metabólica até na amostra da maior profundidade, de 2458 metros. No entanto, quanto maior a profundidade, menor foi a concentração de células encontradas. Por esse motivo, os pesquisadores tiveram que ser bem cuidadosos em relação a contaminação das amostras, podendo levar a uma alteração dos resultados encontrados.

Para simular o habitat desses micro-organismos, esses foram incubados na temperatura de 40oC em um meio contendo pó de carvão, uma forma criada a partir da pulverização desse composto. Foi detectada atividade metabólica, mostrando que os micro-organismos que habitam esses ambientes utilizam o carvão como fonte de nutrientes e liberam metano no ambiente. Dessa maneira, eles podem ser importantes para a manutenção do ciclo do Carbono no planeta.

A comparação entre as sequências da subunidade 16s do ribossomo (sequência conservada que pode ser usada para a comparação de organismos, chamada de “cronômetro evolutivo”) dos micro-organismos das amostras de sedimentos e dos micro-organismos de menores profundidades e mostraram que essas são populações não são similares. Surpreendentemente, os micro-organismos presentes em grande profundidade foram mais semelhantes àqueles encontrados no solo de florestas atualmente. Como Jennifer Biddle, da Universidade de Delaware, disse para o site da Science “é como ir em Plutão e ver um McDonald’s”. Esse achado pode ter a ver com a geologia do local de coleta: há aproximadamente 23 milhões de anos, essa área era um ambiente costeiro com lagoas semelhante à algumas partes da Florida, mas com as mudanças continentais essa área afundou e foi coberta por sedimento, deixando uma camada que rica em carvão no fundo.

Pode ser que os micro-organismos achados sejam descendentes dos que habitam o ambiente terrestre e que tenham se adaptado a vida nos sedimentos marinhos ou pode ser  que essas sejam as mesmas células que ali viviam quando o ambiente começou a afundar. Ou seja, elas teriam mais de 20 milhões de anos de idade!

Apesar de algumas falhas poderem ser apontadas nesse estudo (por exemplo: a forma de coleta estar sujeita a contaminação por outros micro-organismos), ele é um dos que foi mais “fundo” na caça por micro-organismos no fundo do mar, sendo assim de grande valor para o futuro da microbiologia.

Referências:

Inagaki, F. et al (2015). Exploring deep microbial life in coal-bearing sediment down to ~2.5 km below the ocean floor. Science 349, 420-424.

Sites acessados:

http://news.sciencemag.org/biology/2015/07/its-going-pluto-and-seeing-mcdonalds – acesso em 27-08-2015

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