Mulheres, parto e nascimento no Brasil

gravidaoficial

O Brasil é o país em que mais se faz cesáreas no mundo. A Organização Mundial de Saúde (OMS), no entanto, recomenda que só até 15% dos partos sejam realizados por cirurgias. Um dos dados mais alarmantes divulgados a partir dos resultados da pesquisa “Nascer no Brasil: Inquérito nacional sobre parto e nascimento” – foi que o índice geral de partos cesárea no Brasil é de 52%. No setor privado, este número chega a 88%. A pesquisa foi coordenada pela Fundação Osvaldo Cruz e contou com participação de pesquisadores e instituições de pesquisa de todo país.

Um dos motivos que me levaram a escrever sobre essa pesquisa foi, em primeiro lugar, sua amplitude e relevância. É importante destacar, sobretudo, que esse estudo foi realizado no país em um momento em que vivenciamos um contexto de redução de recursos para a pós-graduação, o que tem afetado a produção científica. Foi a primeira e maior pesquisa a oferecer um panorama nacional sobre a situação da atenção ao parto e ao nascimento nos hospitais: foi realizada em 266 maternidades, universo onde ocorrem 83% dos partos do país. Foram entrevistadas 23.940 mulheres, nos anos de 2011 e 2012, o que gerou um volume de dados expressivo. Destacarei aqui alguns dos resultados desse trabalho.

Um aspecto que merece atenção é que esse tipo de estudo é fundamental para subsidiar a formulação de políticas públicas que promovam equidade. É consenso na literatura científica que persiste no Brasil um modelo de atenção ao parto em que os interesses institucionais se sobrepõem às necessidades das mulheres. Esse modelo é pautado por uma ideologia que valoriza a tecnologia, o saber médico e a intervenção sobre os corpos femininos, com procedimentos reconhecidos como danosos. Por consequência, o processo de parto e nascimento, evento tão significativo na vida das mulheres, tem sido relatado como sofrido, solitário e doloroso, modulado ainda pelas conhecidas desigualdades sociais e de gênero que estruturam a sociedade brasileira.

Os dados da pesquisa “Nascer no Brasil” revelaram essas desigualdades na assistência recebida. As mulheres negras e pardas foram as que relataram menor satisfação. São elas as mulheres de classes populares e de baixa escolaridade, residentes nas regiões Norte e Nordeste, que tiveram parto vaginal, majoritariamente atendidas no setor público, indicando uma elitização da assistência.

A pesquisa abordou ainda o tema da saúde mental materna, pouco estudado e raramente diagnosticado.  Os resultados mostraram que 26% das mulheres, entre 6 e 18 meses após o parto, tiveram depressão, sendo esta mais frequentes entre mulheres de baixa condição social e econômica, pardas e indígenas, que não desejavam a gravidez e já tinham três ou mais filhos. Aqui também se enfatizou a insatisfação com o atendimento prestado durante a internação para o parto como fator associado.

Sinteticamente, o estudo conclui:

“As mulheres brasileiras e seus bebês de qualquer grupo social estão sendo desnecessariamente expostos ao risco de efeitos adversos no parto e nascimento. As de mais elevado nível social sofrem maior número de intervenções obstétricas, em especial a operação cesariana, e dão à luz a um grande número de bebês com menos de 39 semanas, perdendo assim as vantagens advindas da sua situação social. As mais pobres, atendidas no setor público, estão submetidas a partos extremamente medicalizados, dolorosos, e demonstram menor satisfação com a atenção recebida. Têm piores indicadores perinatais e condições de saúde em geral, indicando a baixa efetividade do modelo de atenção obstétrica e neonatal predominante nos serviços públicos e privados do país.”

A pesquisa apontou  recomendações para gestores, entidades de classe, profissionais de saúde, universidades e instituições de pesquisa, movimentos sociais, familiares, mulheres e sociedade civil, mostrando que é preciso um esforço conjunto para transformar essa realidade. Entre as recomendações, estão:

  • Urgência em reformar o modelo de atenção ao parto e ao nascimento no país;
  • Promover uma relação respeitosa entre profissional de saúde e a mulher;
  • Realizar pesquisas avaliativas e de comparação de modelos de atenção ao parto e nascimento em diferentes contextos, no setor público e privado;
  • Incentivar o protagonismo e a autonomia da mulher na condução do trabalho de parto;
  • Educação em saúde sexual e saúde reprodutiva nas escolas;
  • Promover o respeito à equidade de gênero;
  • Reduzir as iniquidades regionais e sociais, com investimentos específicos para áreas de populações menos favorecidas;
  • Defender, como direito humano, que todas as instituições relacionadas com a saúde, incluindo bens e serviços, estejam disponíveis, acessíveis, aceitáveis, apropriadas e de boa qualidade.

Por fim, apresento alguns produtos já publicados da pesquisa. Foi produzido um suplemento especial na revista Cadernos de Saúde Pública, com 14 artigos originais publicados em 2014 (clique na imagem para abrir).

Nascer_no_Brasil_Capa_Cadernos(1)

Além dos artigos científicos, os resultados da pesquisa geraram outros produtos, como um sumário executivo, página no Facebook e vídeos, listados abaixo. São maneiras de divulgação de produção científica que não ficam restritas a ambientes acadêmicos, para que atinjam sua finalidade: produção de saber para a transformação na sociedade.

Vídeos:

Nascer no Brasil Cesárea, mitos e riscos

Nascer no Brasil: Parto, da violência obstétrica às boas práticas

Referências:

Nascer no Brasil – Inquérito Nacional sobre Parto e Nascimento. Cadernos de Saúde Pública. volume 30  suplemento 1. Rio de Janeiro,  2014.

MCCALLUM, Cecilia  e  REIS, Ana Paula dos. Re-significando a dor e superando a solidão: experiências do parto entre adolescentes de classes populares atendidas em uma maternidade pública de Salvador, Bahia, Brasil. Cadernos de Saúde Pública. 2006, vol.22, n.7, pp. 1483-1491

 

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