Do sistema imune ao sistema nervoso central passando por uma breve análise da ciência.

A ciência como ela é apresentada a todos tem um quê de “superioridade”. Quem nunca ouviu ou até mesmo disse  “Ah, mas eu li que cientistas falaram que…” como forma de sustentar um ponto de vista ou defender uma ideia? Sim, a ciência se construiu para responder questões de forma lógica e objetiva e capacitar o desenvolvimento da humanidade através de teorias e previsões. Porém, algumas vezes esquecemos que, 1) a ciência não nos dá a “Verdade” sobre o mundo, 2) ela é feita por cientistas tão humanos quanto qualquer outra pessoa, e 3) ela está em constante modificação, seja de técnicas ou modos de pensar.

Em relação a isso, uma ideia apresentada por alguns filósofos e sociólogos da ciência como Thomas Kuhn e Bruno Latour é a de que a ciência não está livre de seu contexto social e histórico. Isto é, as razões para aceitar uma teoria em detrimento de outra não é puramente lógica e objetiva, baseada em dados empíricos e observados.  Mas também depende de outros fatores aos quais os cientistas estão em contato ao longo de sua vida. Entretanto, esse não é um post sobre sociologia da ciência (caso se interessem podemos fazer um sobre esse tema, é só pedir!).     

Em minha área de estudo, neurociência, algo curioso ocorreu recentemente, e exemplifica, de certa maneira, essa característica da ciência.

Acredita-se que o sistema nervoso central (SNC) – composto por cérebro, medula, retina e nervos ópticos – é um sistema bem delimitado e privilegiado, com mecanismos próprios e eficientes que selecionam muito bem o que entra e sai dele. Assim, pensou-se que sua interação com o sistema imune seria diferente de outros sistemas. Reações rápidas e intensas de defesas imunológicas como inflamações e ataques de células defensivas não seriam nada interessantes para esse delicado e complexo sistema. A meninge, a qual consiste em três camadas de membrana, protegeria o SNC contra possíveis patógenos e outras substâncias indesejáveis. Dessa forma, era considerado que o sistema nervoso e o sistema imune periférico não possuíam uma ligação direta como ocorre entre outros órgãos e tecidos por meio do sistema linfático. Isso tornava os mecanismos de defesa, de entrada e saída de células imunológicas no SNC difíceis de compreender. Isso tudo mudou drasticamente com uma recente descoberta publicada na Nature de que há, sim, vasos linfáticos que conectam esses dois sistemas.   

 

sistema linfático e nervoso

Essa evidência traz várias consequências para o estudo e entendimento de como ocorrem as reações de defesa no SNC e, assim, tem grande impacto na compreensão de doenças neurológicas e psiquiátricas como Alzheimer, autismo e esclerose múltipla. Isso porque as causas ou progressões dessas doenças podem estar relacionadas com mal funcionamento dessa conexão direta que resultam em imunidade alterada do SNC, como colocam os autores do trabalho.

Essa observação por si só é impressionante. Porém, outro aspecto interessante que podemos analisar dessa descoberta é o fato de que o estudo da anatomia humana teve seu auge no século XIX e até hoje ainda não sabemos tudo. Talvez a localização muito próxima de vasos sanguíneos tornaram a observação desses vasos linfáticos complicada sem uma tecnologia adequada. Entretanto, também acredito que a forma que tratamos o SNC, considerando-o como algo único e especial, deve ter influenciado no “atraso” dessa descoberta. Apesar de ser um sistema bem peculiar ainda faz parte e interage com outros sistemas do organismo, assim, seu estudo pode se tornar complicado quando colocado em uma redoma. 

Essa não é uma crítica à ciência em si. Acredito que o método científico e as teorias que advém da ciência são os melhores caminhos para o desenvolvimento do conhecimento, pois é democrático e permite replicações. Mas acho legal manter sempre a mente aberta para além daquilo que estamos acostumados. Quem sabe você encontra algo inusitado e ganha um Nobel?!

Referências:

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