Academia e crítica feminista: entrevista com professora Estela Aquino

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Colagem: @lacunainkk

As mulheres têm uma série de desafios a enfrentar no campo científico. A discussão de gênero é uma ferramenta fundamental para esse enfrentamento. Como já abordamos anteriormente no blog, ainda há muito que conquistar no que diz respeito à representatividade das mulheres âmbito acadêmico e na discussão sobre feminismo em espaços de produção científica.

Conversamos com a professora Estela Aquino, referência na produção de pesquisas em Saúde Coletiva, com experiência respeitável de participação ativa nos campos científico, político e no movimento feminista. Formada em medicina, com Mestrado em Medicina Social e Doutorado em Epidemiologia, é professora associada do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA), onde coordena o MUSA – Programa Integrado em Gênero e Saúde. É também integrante do GT Gênero e Saúde da ABRASCO e bolsista de produtividade em pesquisa (1D) do CNPq.

A cientista nos conta um pouco da sua trajetória, fala sobre a contribuição da crítica feminista à ciência e a complexa relação entre academia e militância. Reflete sobre o papel político e social da universidade e o compromisso para que o conhecimento produzido seja socialmente útil, divulgado e apropriado pela sociedade.

Conte-nos um pouco da sua trajetória como cientista e feminista. Para você, o que significa ser uma cientista feminista?

Estela Aquino: Minha identidade feminista começou a ser forjada na graduação em medicina em resposta às discriminações que nós mulheres estudantes sofríamos em um ambiente profundamente sexista e misógino. Na luta pela democratização do país ao final da década de 70 e início dos 80 comecei a participar mais ativamente do movimento feminista que a esta altura tomava a saúde como uma questão central, especialmente pela crítica à medicalização dos corpos e da vida reprodutiva das mulheres e ao androcentrismo da biomedicina.

Recém-formada fui trabalhar no Instituto Nacional de Câncer (INCa) onde passei a desenvolver estudos sobre prevenção e controle do câncer de mama e o de colo de útero, alimentados pelas minhas inquietações feministas e pelo debate que resultou em 1983 no PAISM – Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher. Como médica do INCa, representava a instituição em todas as reuniões e ações para o detalhamento e implementação do PAISM em nível nacional.

Iniciei minha carreira acadêmica na UERJ, onde prossegui articulando a atuação política e profissional como pesquisadora e docente de graduação e pós-graduação. Entretanto, minha atividade científica se intensificou nos anos 90 durante o doutorado que fiz na UFBA, onde acabei permanecendo e criando o MUSA – Programa de Estudos em Gênero e Saúde do Instituto de Saúde Coletiva.  Junto com outras pesquisadoras, tenho atuado para além dos muros da academia, buscando combinar o ensino e a pesquisa em uma perspectiva crítica feminista.

A ciência moderna é um modo de produção de conhecimentos com mecanismos próprios de validação e reconhecimento, que durante muito tempo excluiu as mulheres. Ser uma cientista feminista exige a “reinvenção deste mundo”, o que não é tarefa fácil e impõe antes de tudo questionar os mecanismos de distribuição de poder e de recursos baseados no gênero.

O que você acha da relação entre academia e militância feminista?

Estela Aquino: Não é simples incorporar a reflexão feminista no trabalho acadêmico, já que o modelo hegemônico é marcadamente androcêntrico e muitos fenômenos são obscurecidos, considerados de menor importância ou mesmo sem interesse científico. Isso é ainda mais importante na área de saúde, já que historicamente a biomedicina tem fornecido as bases científicas para a manutenção de desigualdades de gênero.

Mesmo que não pretendam incorporar a reflexão feminista em suas pesquisas, as mulheres enfrentam muitos desafios e dificuldades pelo simples fato de que o androcentrismo influencia a atuação acadêmica em todos os níveis, desde a escolha das áreas do conhecimento aos mecanismos de acesso e progressão na carreira, inclusive com a ocupação de postos em uma estrutura profundamente hierarquizada. O próprio modelo de cientista ideal, que serve de parâmetro para a avaliação do desempenho, pressupõe dedicação integral, sem outros interesses e compromissos, com a finalidade de manter uma performance continuada, o que convenhamos, é pouco compatível com os ciclos reprodutivos e de vida das mulheres.  Por isso, muitas acabam adiando ou abdicando do casamento e da maternidade. Assim, a militância feminista no âmbito acadêmico exige em primeiro lugar visibilizar os mecanismos de exclusão e discriminação das mulheres na própria ciência. A atuação em rede característica do movimento feminista é uma estratégia útil para potencializar esforços no sentido de superar estes desafios.

Cientistas Feministas: Quais as principais a contribuições da crítica feminista à ciência?

Estela Aquino: O feminismo é um fenômeno social complexo e abriga várias vertentes teóricas em diferentes campos do conhecimento. A sua influência na ciência inclui a formulação de conceitos e teorias, tais como a própria categoria de gênero e a noção de divisão sexual do trabalho; a abordagem de novas questões com métodos e técnicas disponíveis; e a incorporação de novas estratégias e técnicas metodológicas (por exemplo, o uso da iconografia na pesquisa histórica sobre cotidiano). Sua contribuição tem se dado desde a visibilização de fenômenos obscurecidos pelo androcentrismo a novas perspectivas, projetos e prioridades. Muitas contribuições nem são mais pensadas como feministas.

Como as suas pesquisas se relacionam e se articulam com as pautas do movimento de mulheres?

Estela Aquino: Meu trabalho tem-se pautado na compreensão que tenho sobre o papel da universidade e no compromisso de que o conhecimento produzido seja socialmente útil, sendo divulgado e reapropriado pelos sujeitos coletivos.  Isso não significa apenas responder questões da agenda feminista, mas antecipá-las, de modo a qualificar o debate político e a formulação de políticas públicas.  Nesse sentido, a qualidade da produção científica é imprescindível, e a atuação acadêmica envolve a permanente articulação com a sociedade e as várias instâncias de controle social sobre o Estado, embasando políticas sociais mais justas e adequadas às necessidades das populações.  Tenho participado de várias destas instâncias, integrando comissões e conselhos, tais como a Comissão Intersetorial de Saúde da Mulher do Conselho Nacional de Saúde, e mais recentemente o Conselho Nacional de Direitos da Mulher, onde representei a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO) por cinco anos. Na ABRASCO, participei da criação do Grupo Temático em Gênero e Saúde, importante instrumento político que influencia a organização de eventos científicos e a definição de prioridades de pesquisa junto às agências de fomento. O financiamento de pesquisas tem papel determinante na produção de conhecimentos, tal como se observou, por exemplo, na década de 90 pelo estímulo aos estudos sobre sexualidade e saúde reprodutiva e a secundarização do trabalho.  Temas como violência sexual e aborto têm sido pautados pelo movimento feminista, apesar da crescente pressão de setores conservadores e religiosos.

Em sua opinião, o que está faltando pesquisar nesse campo?

Estela Aquino: A agenda precisa ser permanentemente atualizada e há muitas lacunas do conhecimento.

A situação das mulheres tem mudado muito nas últimas décadas, mas há grandes permanências nas relações de gênero, principalmente na esfera doméstica. No Brasil, pouco se conhece sobre o efeito dessas transformações na saúde. As pesquisas ainda se concentram nos aspectos reprodutivos e temas como saúde mental, trabalho e violência são muito pouco estudados. O envelhecimento e as doenças crônicas não transmissíveis ainda têm enfoque eminentemente biomédico e requerem uma abordagem crítica e feminista.

Para finalizar eu gostaria de enfatizar a necessidade de investigar as mudanças e permanências que vêm ocorrendo na academia e na produção de conhecimentos. Apesar da crescente participação das mulheres na ciência, principalmente como consequência do aumento da escolarização feminina em todo o mundo ocidental e também no Brasil, mudanças culturais no meio científico são lentas e difíceis. Por isso, conhecer esta dinâmica é crucial para apoiar a definição de estratégias de ação na busca da equidade de gênero.

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