A dificuldade do debate feminista quando ele bate à sua porta

tirinha_feminismo2

Tirinha por: @lacunainkk

Não entendo muito sobre o universo feminista. O que sei é o que leio de diversos textos que aparecem para mim e estou longe de ser uma expert. Mas se você se interessar, textos muito mais esclarecedores sobre seu significado e história podem ser lidos nesse mesmo blog. Porém, mesmo não conhecendo todas suas vertentes, me considero uma feminista. Apesar de frequentemente pensar sobre o assunto, só recentemente comecei a debater sobre feminismo e empoderamento das mulheres mais abertamente. Seja com os amigos, colegas de trabalho, família, namorado… Independente de com quem esteja conversando, a dúvida sempre aparece… “estou sendo chata?”, “estou exagerando?”, “será que estou sendo hipócrita?”. Não sei para vocês, leitores, mas junto com esse debate mais questões aparecem.

Faço doutorado em uma área que tenta entender o sistema nervoso, principalmente observando o comportamento. Assim, no meu laboratório, temos muita curiosidade sobre o comportamento humano. Discutimos sobre novas descobertas nesse campo. Debatemos também sobre filosofia da ciência e como devemos sempre questionar as teorias, as “verdades” sobre o mundo. Principalmente porque a ciência é feita por nós, pessoas criadas em certa sociedade, com certa cultura, certas crenças e descrenças, ou seja, enviesadas. Porém, tem sido comum uma reação aversiva de meus colegas de trabalho, homens e mulheres, quando comento algum assunto relacionado ao feminismo. Piadas e ironias são utilizadas para matar o assunto tornando difícil de me fazer entender. A impressão que tenho é que estou insistindo em algo do passado, quando as mulheres eram “realmente” reprimidas. Mas que agora tudo mudou, pois veja só, você está aqui em uma Universidade, fazendo doutorado, sendo ouvida por homens….Quer mais o quê?

O triste é que eu gostaria de simplesmente debater e não pregar uma ideia. Eu também estou em processo de formação de opinião. Não estou falando que eu mesma não faço julgamentos de valores. Por exemplo, sinto uma ponta de orgulho quando falam que eu tenho qualidades masculinas. Quando pensei nisso fiquei meio chocada, pois percebi que características como ser mais fria, independente, desencanada são mais valorizadas e, pior, consideradas masculinas. Do outro lado, características como ser mais sensível, mais compreensiva, são muitas vezes desvalorizadas, principalmente em ambientes de trabalho, e tidas como femininas. Qual o parâmetro para isso?  É essa expectativa de gêneros e estereótipos que mais me incomoda. Assistam o vídeo da maravilhosa Chimamanda Adichie para ter uma ideia mais clara.

Sim, é claro que existem diferenças biológicas entre o sexo feminino e masculino, mas isso não significa que devemos criar expectativas ou julgar as pessoas levando em conta somente essas duas, digamos, “formas”. Além de fatores biológicos, fatores psicológicas e socioculturais influenciam a todo momento a formação da identidade de uma pessoa.

Um artigo publicado em 2011 (Joel, 2011; para ler ou para assistir vídeo do TED ) expõe isso de forma bem interessante. Algumas características do cérebro são distintas dependendo do sexo, como tamanho, composição de neurotransmissores, densidade de dendritos, etc. Porém, não há evidências conclusivas de que isso levaria a uma significativa diferença comportamental e cognitiva  entre o sexo feminino e masculino. Além disso, observou-se que fatores ambientais, como o estresse, podem modificar essas características. Ou seja, um cérebro com uma característica “feminina”, após exposto a estresses, passaria a expressar uma característica “masculina”. Assim, o artigo questiona a frequente classificação do cérebro em uma forma dentre duas: feminina e masculina. Sugere-se, então, considerar o cérebro como uma composição heterogênea de características “feminina e masculina”, isto é, um cérebro intersexo podendo possuir uma gama de “formas”. Levando isso em conta parece meio inútil falar de papéis de gênero, identidade de gênero e expectativa de gênero considerando somente o feminino ou masculino. Os estereótipos são criados, a cultura é criada, por nós, pessoas. E, se é possível que características do cérebro se modifiquem, nossa mentalidade também pode mudar.

Entendo que existem diversos tipos de feminismo. Alguns mais radicais, outros nem tanto. Mas é fato que ainda existem tratamentos e expectativas diferentes para homens e mulheres. Parece que quanto mais lutamos por direitos e liberdade, mais sobrecarregadas ficamos. Pois conquistar o mercado de trabalho, espaço intelectual, liberdade sexual não ocorreu ao mesmo tempo que outras mudanças. Ainda é esperado das mulheres que casem, tenham filhos, cozinhem, lavem, e ainda ganhando menos para trabalhar o mesmo que os homens. Do mesmo modo, expectativas também existem para homens. Muitas vezes já vi homens sensíveis e carinhosos sendo escrotos e objetificando mulheres por pura pressão social. Sabe aquele cara que muda o comportamento quando está com amigos? E se…considerarmos que todos somos um poço de preconceitos que foram acumulados ao longo de anos? Que fomos expostos a informações construídas desde quando nascemos, sobre como devemos ser, nos comportar, nos vestir, etc.? Se não questionarmos porque julgamos e reprimimos pessoas e comportamentos, não será possível mudar e melhorar. Assim, a troca de experiências e questionamentos faz parte do desenvolvimento de opiniões pessoais, não somente da formação de teorias científicas. No trabalho de um cientista ele precisa ler, se informar e formar opiniões baseada em fatos, pensar criticamente e não ter preguiça de ir buscar mais informação. Por que não ter essa mesma conduta quando deparado com um assunto tão relevante quanto qualquer outra teoria científica, o feminismo?

Para mim, o objetivo do feminismo não é todo mundo ser igual e, menos ainda, as mulheres serem supervalorizadas. As diferenças de sexo e gênero devem ser consideradas e cultivadas…de forma igualitária. Como fazer isso? Sei lá…talvez começando por questionar tudo, que nem Descartes fez. Vamos duvidar de tudo para chegar em alguma “verdade” sobre nós e a sociedade em que vivemos?

Referências inspiradoras:

Anúncios

3 comentários sobre “A dificuldade do debate feminista quando ele bate à sua porta

  1. Pingback: Academia e crítica feminista: entrevista com professora Estela Aquino | cientistasfeministas

  2. Nossa! Maravilhoso! Podemos conversar?! Adoraria. Penso muito parecido com aquilo que você colocou aqui e quero me dedicar cada vez mais justamente a perguntas como as que você colocou aqui. Estou há muito tempo procurando alguém para ter este diálogo, que vai muito além do simples “queremos mulheres na ciência”.

    Curtido por 1 pessoa

    • Oi Gabriela, tudo bem?
      Que legal que vc gostou do post! Foi o primeiro texto que escrevi para o Blog e eh um dos que mais gosto! Estava muito envolvida com tudo isso.
      Claro que podemos conversar e trocar ideias. Eu adoro conhecer pessoas e tentar entender suas motivacoes e inquietacoes. Pode me mandar email quando quiser para elisa.marij@gmail.com
      Meu nome eh Elisa Jordao e faco doutorado no Departamento de Fisiologia do IB-USP/Capital.

      beijos

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s