Planetas gêmeos, Jodie Foster, Stephen Hawking e o escaneamento completo do nosso céu.

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Ellie (Jodie Foster) e seus radiotelescópios, numa tentativa de “Contato” (Filme, 1997).

Caso você ainda não o tenha feito, já pode ficar feliz por morar no endereço mais privilegiado do Sistema Solar. Tá cheio de Armstrong na história pra confirmar “what a wonderful world” (dois, nas minhas contas). Se eu precisasse te convencer a morar na Terra – como se você tivesse outras opções – seria fácil apresentar os mais diversos argumentos: Sol da manhã – e da tarde – com intervalos para a noite. Não é aquela loucura do centro (do sistema) com todo aquele trânsito, anos curtíssimos (onde enfiaríamos todos os feriados?), dias intermináveis (1407 horas!), bombardeios incessantes de asteróides e milhares de vulcões ativos. O Tietê parece uma beleza quando as outras opções são rios de ácido sulfúrico. Poderíamos caminhar em direção à periferia, mas prometo que seria bem mais frio e você se sentiria estranho sobre o seu corpo com as outras gravidades – isso quando há uma superfície sólida onde pisar. Que amante escreveria canções inspirado em satélites naturais cujos nomes significam Terror e Medo? Por aqui há também um escudo natural, a magnetosfera, que nos protege dos poderosos ventos solares arrebatadores de oxigênio. A nossa atmosfera “guarda” o calor, que se distribui de forma essencial à nossa sobrevivência. A crise hídrica parece irrelevante quando analisada desse ângulo: não sei muito bem como faríamos com a água…. Por sinal, estamos a uma distância do Sol que permite que exista água líquida em nosso planeta (não apenas congelada, não apenas gasosa), o que nos põe numa importante localização definida como “zona habitável” dos sistemas.

É fato que não somos os únicos nesta posição. Em outros sistemas planetários, orbitando outras estrelas, vários canditatos a “portadores de água líquida” viajam na imensidão do universo margeando um dos maiores e mais intrigantes questionamentos da ciência: Estamos sozinhos no universo? De uns tempos pra cá ouvimos com relativa frequência notícias sobre o o novo exoplaneta mais interessante “dos últimos tempos, da última semana” – acompanhado de um nome, um código e blá, blá, blá. Assim, isoladas e repetidas, essas notícias parecem sem importância, quando na verdade fazem parte de projetos gigantescos e consecutivos que, há décadas, procuram sistematicamente por companhia no universo. Sendo a física em seu âmago uma ciência intimamente relacionada a análise de probabilidades, fisicos, astrônomos, e outros curiosos, observando bilhões de sistemas solares não podem deixar de se perguntar: quais as chances da única vida inteligente em todo esse espaço estar na Terra? Obviamente, enquanto cientistas, tomamos como verdade o que se pode comprovar. Entretanto, a inquietação soa como radiação cósmica de fundo, ilustrada pela profunda frase de Carl Sagan “a ausência de evidência não é evidência da ausência”. No filme Contato (recomendadíssimo!), adaptado do romance de mesmo nome escrito por Sagan, a atriz Jodie Foster protagoniza magicamente a história de uma astrônoma que dedica sua carreira à essa busca, num enredo que expõe o árduo trabalho, a dedicação, a persistência, a vocação e a paixão necessárias a essa empreitada, bem como as implicações da jornada. Procurar vida no universo significa varrer infinitas possibilidades motivado “apenas” pela inquietação.

No último mês, dois pontinhos do universo acenderam as expectativas de equipes de astrônomos: Um planeta gêmeo de Júpiter, outro gêmeo da Terra. Veja bem, quando digo “gêmeo”, é como quando descrevo minha irmã: mais alta, mais magra, cabelos mais claros, mais nova… Mas ainda assim, inegavelmente parecida. São tantas as características a serem observadas que um certo conjunto de coincidências já é o suficiente para estabelecer a “irmandade” entre os planetas. O primeiro pequeno ponto orbita uma estrela semelhante ao Sol, num sistema com possíveis planetas rochosos mais próximos ao centro. Em nosso sistema, Júpiter protege a Terra de corpos maiores oriundos de partes mais externas à nossa órbita, atraindo gravitacionalmente esses corpos e evitando possíveis colisões. Essas semelhanças entre os sistemas fomentam a expectativa de que um desses planetas rochosos mais internos tenha tido um desenvolvimento parecido com o que tivemos. Megan Bedell, autora principal do artigo em que a notícia foi apresentada, aponta a descoberta como o início da observação dos resultados de duas longas décadas de busca e atribui a isso o uso de instrumentos específicos para a procura de exoplanetas, como o telescópio HARPS. O segundo exoplaneta, citado neste outro artigo (o Kepler 452b) seria um “gêmeo” da Terra, um pouco maior, orbitando uma estrela um pouco mais velha, mas dentro da zona habitável do sistema, o que nos põe uma baita pulga atrás da orelha. Será que… O “porém” é que, para chegar até lá, precisaríamos viajar 1400 anos – na velocidade da luz.

Todos esses objetos estão, de fato, muito distantes, o que de modo algum reduz o brilho de sabermos sobre a sua existência e o que ela significa para a nossa busca. Ellen Stofan, cientista chefe da NASA afirma que já sabemos onde e como procurar, e que temos tecnologia para fazê-lo, de modo que agora, a descoberta seria uma questão de tempo.

Também em julho deste ano, o cosmólogo Stephen Hawking lançou na academia britânica de ciências, a Real Society, em Londres, o projeto Breakthrough Listen que visa escanear o espaço por uma década em busca de vida inteligente – promentendo dados e softwares abertos. Um projeto paralelo, Breakthrough Message vai eleger em uma competição internacional a mensagem digital que representará a humanidade cosmos afora (ou seria adentro?). Os detalhes da competição serão divulgados em breve e você pode acompanhá-los por aqui.

Quando a Voyager I nos expôs do tamanho de um pixel em 1990 na imagem conhecida como “pálido ponto azul”, inevitavelmente nos perguntamos: quantos dos pixels que observamos em imagens do céu podem ser uma outra Terra, com outras civilizações, outras histórias? A cada descoberta de um exoplaneta com potencial para abrigar vida nos sentimos mais próximos da resposta sobre a nossa solidão no infinito.

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Imagem da Voyager I mostrando a Terra como um pequeno e pálido ponto distante. Fonte: https://youtu.be/3sZqORc8Or8

“Essa é a humildade que a ciência nos dá. Que nos afasta dessa necessidade infantil de sermos o centro das coisas. E a Voyager nos deu essa imagem da Terra, que é tão emocionante por que você não pode olhar para essa imagem e não pensar em quão frágil é o nosso mundo e quanto temos em comum com todos aqueles com que o compartilhamos. Todos nesse minúsculo pixel”.

Ann Druyan, co-autora da série Cosmos (trecho retirado daqui).

Fontes:

Astronomy & Astrophysics manuscript no. HIP11915_ms c ESO 2015 June 26, 2015

Received 2015 March 3; accepted 2015 May 23; published 2015 July 23 by the Astronomical Journal

Sites:

http://www.galeriadometeorito.com/ e http://phys.org/news/2015-07-jupiter-twin-solar.html

2 comentários sobre “Planetas gêmeos, Jodie Foster, Stephen Hawking e o escaneamento completo do nosso céu.

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