Feminismos: o feminismo marxista

“Se a aparência e a essência das coisas coincidissem, a ciência seria desnecessária.” – Karl Marx

Ao contrário do que diz o senso comum, nunca é demais repetir: feminismo não é o contrário de machismo.

Feminismo é uma grande corrente ideológico-política que conta com muitas vertentes. Não existe um feminismo, existem feminismos. O que todos os feminismos possuem em comum é o fato de acreditar que as mulheres deveriam ter os mesmos direitos que os homens, deveriam ser tratadas de maneira igual.

Ou seja, todas as correntes do feminismo percebem que as mulheres, em nossa sociedade atual, – e em muitas outras sociedades, mas não todas[1] – não são sempre tratadas como seres humanos. Somos tratadas como cidadãs de segunda classe. Quando, por exemplo, a história das mulheres não é contada, reflexo do fato de que, por séculos, foram apenas os homens que tiveram acesso garantido aos estudos. Quando, por exemplo, as mulheres são mais interrompidas em suas falas públicas do que os homens. Quando, por exemplo, as meninas são criadas para ajudar as mães nas tarefas domésticas e dos meninos não se exige que realizem as mesmas tarefas. Quando, por exemplo, o homem trata sua companheira como sua posse e se sente no direito de matá-la ou agredi-la por ciúmes. Etc etc etc.

Muitos são os exemplos de opressões diárias pelas quais as mulheres passam. Hoje, falaremos de uma corrente feminista específica, que enxerga as diferenças entre homens e mulheres de uma maneira peculiar.

Antes de falarmos sobre o feminismo marxista, é importante perguntarmos: o que é marxismo? Quem foi Karl Marx? O que ele tem a ver com o feminismo?

Representação de Karl Marx, retirada do Twitter https://twitter.com/karlthemarxist

Representação de Karl Marx, retirada do Twitter https://twitter.com/karlthemarxist

Karl Marx não era “feminista”. Marx era um homem de sua época, com todas as limitações que isso implica. Mesmo tendo sido um homem genial que desvendou o “mistério da mercadoria” e da sociedade capitalista, não foi capaz de chegar até outras opressões dentro da opressão “maior”, a de classes.

No entanto, sua contribuição para entendermos o funcionamento da sociedade capitalista é gigantesca. De maneira resumida, ele nos mostrou como o capitalismo faz com que as relações entre as pessoas passem a ter a aparência de uma relação entre coisas, entre mercadorias. A própria força de trabalho passa a ser tratada como uma mercadoria qualquer, que pode ser vendida no mercado. Ou seja, a violenta passagem do modo de produção feudalista para o modo de produção capitalista retirou dos trabalhadores os meios de produção. Ao mesmo tempo que ficaram despossuídos, também foi implementada a ideologia de que todos seriam livres, iguais e proprietários perante o direito. Isso significa que a classe trabalhadora seria, aparentemente, tratada de forma igual. Teria, assim, a sua força de trabalho como sua única mercadoria e que poderia ser “livremente” vendida no mercado (enquanto os capitalistas deteriam os meios de produção). Acontece que a classe trabalhadora não escolhe “livremente” trabalhar, já que passaria fome se não vendesse sua força de trabalho pelo preço que os capitalistas escolheram pagar.

Marx também contribuiu para a ciência com seu método. Ele nunca escreveu sobre o que chamamos de materialismo histórico dialético, já que esse método sempre esteve entrelaçado com o próprio conteúdo de seus escritos. O materialismo histórico dialético é uma grande contribuição para as ciências humanas (polemizando: até para as ciências naturais), já que sai da aparência apresentada pela sociedade capitalista e busca a essência dos problemas, a sua raiz.

Simplificando: o método é materialista já que busca a verdade na materialidade, naquilo que de fato acontece no mundo (ao invés de primeiro inventar uma teoria para depois tentar encaixar o mundo nela). É a teoria que deve se adequar aos fatos, e não o contrário. É um método histórico, pois nenhuma categoria pode ser explicada sem se buscar seu passado. Não se pode, por exemplo, explicar o “surgimento” do capital financeiro sem buscar todo o desenvolvimento histórico que o possibilitou. É um método dialético, pois, nas ciências humanas, não existe uma divisão estanque entre objeto de estudo e pesquisador ou pesquisadora. Quem pesquisa está inserido na sociedade e não podemos acreditar no mito do discurso neutro. Quem escreve sobre ciências humanas está sendo influenciado pelos seus próprios preconceitos, opinião política, posição de fala etc.

Finalmente, chegamos ao ponto. E o feminismo marxista?

O feminismo marxista defende a centralidade do trabalho na explicação de todas as outras categorias comumente utilizadas ao se tratar de relações de opressão. A categoria gênero, para o feminismo marxista, não pode ser lida autonomamente, sem se pensar em classe, em trabalho. Não só a categoria gênero, como também raça e sexualidade, só podem ter uma leitura que vá à raiz da opressão se forem analisadas a partir da centralidade do trabalho. Ou seja, antes dessas categorias, devemos pensar na noção de “classe”.

Isso porque o feminismo marxista argumenta que o capitalismo, apesar de não inventar a opressão de gênero, apropriou-se dela a seu favor. Só para dar um exemplo mais gritante: o capitalismo se apropria gratuitamente do trabalho da mulher quando ela faz todo o trabalho doméstico sozinha. Além de se apropriar desse trabalho, ainda se espalha a ideologia de que o trabalho doméstico é improdutivo[2] e, portanto, sem importância. Ora, o trabalho doméstico é socialmente necessário para a “manutenção da ordem”. Sem alguém para lavar, cozinhar, cuidar dos filhos, dos idosos, etc, o trabalho produtivo não poderia ser executado. Ninguém sai para trabalhar se não tem roupa lavada e passada, se não se alimentou, etc. Historicamente, esse trabalho essencial para o funcionamento da nossa sociedade é invisibilizado e tratado como dispensável.

E a questão de classe? Após ler o parágrafo anterior, muitas pessoas poderão pensar que “ah, mas hoje em dia as mulheres trabalham fora, as mulheres não estão mais presas ao lar”. As mulheres de classe média saem para trabalhar e quem fica “no seu lugar” são as mulheres pobres, em sua grande maioria negra, trabalhando como empregadas domésticas. No caso de outros países, como os Estados Unidos, são as mulheres imigrantes também precarizadas. O trabalho doméstico não desapareceu, ele apenas passou de uma mulher para outra. Enquanto outras correntes do feminismo acreditam que a “mulher conquistar o mercado de trabalho” (sendo que as mulheres pobres trabalham desde sempre) é um grande avanço, o feminismo marxista questiona: e a mulher pobre? E a mulher negra? E a mulher trans? Somos todas mulheres…

Muitas correntes feministas acreditam que o feminismo marxista está ultrapassado e que não é possível explicar gênero através de uma leitura marxista. Eu, enquanto feminista marxista, acredito que enquanto a sociedade capitalista não for superada o marxismo não será superado. As estruturas são as mesmas, afinal. Outra questão é que o feminismo marxista pensa no coletivo, não no individual. Essa corrente de feminismo não tenta explicar “gênero” ou os processos individuais de empoderamento, por exemplo. Não que feministas marxistas acreditem que esse processo é desimportante (é muito importante sim!), apenas não é o objeto de disputa desse feminismo.

Outra questão que se enfrenta no debate teórico é que muitos marxistas acreditam que não é importante debater a questão de gênero, que apenas a categoria classe é suficiente. Também discordo desse marxismo, já que a opressão de gênero não desaparecerá automaticamente com a abolição das classes. Um grande exemplo disso é o caso da Revolução Russa de 1917, que apesar de hoje sabermos que falhou (até porque a União Soviética ficou isolada e não existe socialismo de um país só), na época da tentativa de instalação do comunismo as tentativas de igualar os gêneros falharam. As mulheres continuaram em situação mais precária que os homens, apesar do governo tentar resolver isso juridicamente, como com as leis do divórcio e do aborto. Sobre esse assunto recomendo o interessante “Mulher, estado e revolução”, de Wendy Goldman, que narra exatamente esse período histórico.

Capa do livro

Capa do livro “Mulher, estado e revolução”, retirado do site da Boitempo Editorial http://www.boitempoeditorial.com.br/v3/titles/view/a-mulher,-o-estado-e-a-revolucao

Por fim, importante salientar que a discussão na academia – pelo menos na área em que eu me insiro – sobre esses assuntos é ainda muito deficitária. Felizmente muitas outras áreas das ciências humanas se preocupam em produzir e pesquisar sobre gênero, marxismo etc. Na área do direito, ao contrário, é muito pouca a discussão séria tanto sobre marxismo quanto sobre feminismo e menos ainda sobre feminismo marxista. É muito prejudicial para a produção de conhecimento se perder a categoria marxista da historicidade, por exemplo. O direito é ensinado em nossas academias como se fosse uma categoria eterna e a-histórica, como se os institutos jurídicos surgissem do nada e não servissem ao capitalismo. Isso empobrece o estudo do direito já que não o contextualiza na sociedade em que ele esta inserido. Não pensar na questão de gênero também é muito prejudicial, já que se invisibilizam as mulheres presentes nesse espaço. Não só na academia, em todos os espaços.

[1] Acreditamos que se trata de anacronismo dizer que todas as sociedades oprimiram as mulheres. Além de ser inverídico (sobre essa questão ver o livro “A origem da família, da propriedade e do estado” de Friedrich Engels, em que ele mostra como as sociedades surgiram matriarcais e foi a transmissão de propriedade que causou a opressão da sexualidade das mulheres), é necessário, a partir do método marxista, observar cada período histórico em suas especificidades, sem generalizações descontextualizadas.

[2] Através de uma leitura marxista, o trabalho doméstico pode ser considerado um trabalho “improdutivo”, mas está longe de ser sem importância e desnecessário.

Bibliografia

CASTRO, Mary Garcia. Marxismo, feminismos e feminismo marxista: mais que um gênero em tempos neoliberais. Crítica Marxista, n. 11, p. 98-108, 2000.

HIRATA, Helena. Nova Divisão sexual do trabalho?. 1ª Edição. São Paulo: Ed. Boitempo, 2002.

MORAES, Maria Lygia Quartim de. Marxismo e feminismo: afinidades e diferenças. Crítica Marxista, n. 11, p. 89-97, 2000.

SAFFIOTI, Heleieth I. B. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004.

_________. A mulher na sociedade de classes: mito e realidade. São Paulo: Expressão Popular, 2013.

SOUZA-LOBO, Elisabeth. A classe operária tem dois sexos. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2011.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s